quarta-feira, 21 de setembro de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Entrevista sobre teatro
De tempos em tempos, anuncia-se com todo estardalhaço a morte do teatro. Assim foi quando surgiu o cinema, o rádio, a televisão e agora, mais uma vez, é a internet a mídia que vai enterrar o teatro de vez. O que ocorre, na realidade, é que o teatro está cada vez mais vivo, principalmente entre a geração mais jovem. O que acontecia alguns anos atrás, quando o teatro era apenas um caminho para a televisão, já não acontece mais com tanta frequência. Tanto autores quanto atores, incluindo os diversos grupos teatrais, trabalham e vivem exclusivamente do teatro. Entre esses autores, está o dramaturgo Joeli Pimentel. Da mesma geração de Mário Bortolotto, Pimentel faz um teatro reflexivo e vigoroso. O mais importante não é mais fazer do teatro um laboratório de experimentação. É muito maior a preocupação em tentar comunicar sentimentos, que muitas vezes são incomunicáveis. Nascido no Paraná, de origem proletária, Joeli não é um autor exclusivamente político, mas seus personagens vivem situações limites e até mesmo absurdas. Autor do premiado Comprei um Tresoitão e fui Brincar com Deus, Joeli tem várias peças em seu currículo. Em 2003, montou o próprio grupo teatral A Cia. dos Desencontrários junto com a atriz (e esposa) Danielle Ávila. Joeli também já escreveu um livro de contos e prepara-se para filmar seu primeiro longa-metragem. Com toda essa atividade, Joeli Pimentel é a prova de que o teatro continua mais vivo do que nunca e muito bem de saúde. Evoé, Joeli! [Paulo Mohykovski]
Paulo Mohykovski - O teatro do século vinte apontou para a incomunicabilidade do indivíduo, a tal ponto, que muitas peças parecem quase incompreensíveis, como as de Samuel Beckett. Neste século, parece que há uma busca pela comunicação, mesmo quando enfocam personagens solitários ou banidos da sociedade. Como você encara esse tema, o da comunicação ou da falta dela, nas suas peças?
Joeli Pimentel - Acho que nas minhas peças os personagens estão sempre tentando. Tentando se comunicar, tentando fazer, tentando mudar, e duma certa forma eles sempre conseguem, nem que for morrendo como na peça Comprei um Tresoitão e fui Brincar com Deus.
Hoje a comunicação tá tão fácil, tudo está tão exposto, tudo tão liberado, que parece que as pessoas não têm tempo (nem saco) pra pensar, pra estudar, pra meditar, se envolver seriamente com algo ou com alguém, parece que tudo isso virou uma bobagem.
Então tudo ficou superficial. Acho que estamos numa fase em que todo mundo pode falar a comunicação está fácil mas não tem O QUE falar. Parafraseando o jornalista da Gazeta Mercantil, Juan Velásquez, que escreveu sobre o Tresoitão no Jornal do Comércio (ele mata no ninho esse assunto): "Quando uma trupe de teatro se junta, um dos primeiros obstáculos para uma boa montagem é vencer o desafio de encontrar o que se quer dizer".
Acho que isso é um retrato do momento em que vivemos. Hoje em dia as pessoas são mais instrumentalizadas e menos preparadas para a vida, cada vez mais social e menos capaz de lidar com a sociedade. Quem vê minhas peças fica intrigado, porque parece que a solução do problema é tão fácil e às vezes até é, mas os personagens que estão vivendo aquilo não conseguem resolver. No Perfuro (meu último texto ainda inédito) temos dois personagens com personalidades bem marcadas, fortes e que defendem suas ideias o tempo todo, ou seja, solucionamos o problema da comunicação. Agora, chegar num denominador comum e resolver a situação é que é difícil. Temos que falar menos e agir mais. Nas minhas peças sempre tem uma resolução, no caso da Perfuro é a união para um bem maior.
PM Você e o Mário Bortolotto são representantes de um novo teatro, tanto que já trabalharam juntos. Quais as semelhanças e diferenças entre vocês dois como autores?
JP - Somos parecidos no universo retratado de nossas obras, o de dar voz a personagens outsiders, que normalmente ficariam fora da dramaturgia no Brasil. A diferença está na maneira de compor esses tipos. Os personagens que ele cria brigam com o mundo em volta e não arredam o pé do que acreditam, são irônicos. Os meus personagens já são guiados pelo acaso, estão à deriva nas intempéries da vida, sofrem por ser românticos num meio violento e normalmente enlouquecem. Acho que sou um dramaturgo de visão piedosa para com os seres humanos. Acho que a diferença está aí.
PM - Uma das características que une você ao Bortolotto é uma forte carga autobiográfica nas suas peças. Nunca os autores expuseram tanto as suas vidas. De onde nasceu esa necessidade de expor a própria vida?
JP - Todos os seres humanos passam ou sofrem dos mesmos dilemas. Quando utilizamos nossas vidas, acredito que ocorre uma identificação maior com o público. Falamos do microcosmo para o macro. Do nosso quintal para as esquinas do mundo. Eu acho que todo autor retrata o que está passando, o que está vivendo: o que pensa é sua reflexão do mundo. Acho que é pra isso que escrevemos. Mesmo que seja um autor criando personagens femininas, elas são um pouco do que acreditamos, de como vemos um tipo de mulher. Acho que hoje em dia os autores podem "assumir" que essa é sua vida e o que eles acreditam; o que não dava pra acontecer alguns anos atrás, porque senão eram presos ou tidos como loucos. Os meus textos são mais perguntas do que respostas sobre a vida. Tudo o que escrevo está cheio de dilemas físicos ou existenciais, que temos que passar enquanto seres vivos.
PM - Os artistas geralmente são oriundos de classe média alta, pois podem pagar cursos de teatro, comprar livros, frequentar peças, etc. A sua biografia é bem diferente, já que você vem de uma classe economicamente mais desfavorecida. O que isso influenciou no seu teatro?
JP - Sou um beatnik, um viajante, meio louco, meio alguma coisa e meio bosta nenhuma. Todo artista sofre influência do meio em que foi criado e eu não poderia fugir à regra. As dificuldades econômicas me mostraram outro mundo, o mundo dos excluídos, dos operários, dos boias-frias (trabalhadores rurais). Até os dezessete anos fui um caipira, alienado, um branquelo morador de favela, uma bola chutada sem reclamar, um desses covardes católicos que esperava a vinda do Messias para salvar seu rabo. Depois disso, o teatro e a literatura e o cinema me municiaram para enfrentar o mundo. Escrevo sobre os personagens que vivem na periferia do mundo. Mesmo agora, com uma vida mais confortável, não mudei nada: continuo arrancando a superfície da pele do mundo, para mostrar a merda que é seu interior. Eu não saberia escrever sobre a classe média, sobre suas frivolidades, suas comédias sem graça.
PM - Nos anos 80, toda a geração beat começou a ser publicada e um autor como Bukowski, que não é um beatnik de carteirinha, se tornou popular no Brasil. Muitos jovens autores se deixaram influenciar por essa geração. Ao mesmo tempo nossa literatura afogou-se em cervejas e drogas. O quanto isso foi favorável e o quanto foi prejudicial aos novos autores?
JP - Se a pessoa consegue ler Bukowski ou qualquer um da geração beat e só enxergar que eles são uns bêbados vagabundos, então não entendeu nada. O mais importante é que essa geração mostrou outro caminho para os jovens escritores, uma maneira diferente de escrita, que se comunicava com as ruas. Não vejo nada de prejudicial, até porque são poucos os escritores de teatro que têm ou tiveram um estilo de vida beatnik. Já na literatura temos um pouco mais.
PM - Tennessee Williams foi um dramaturgo que começou a sua carreira retratando tipos problemáticos, marginalizados, mas só alcançou o sucesso, de fato, com um drama familiar. Por que os autores preferem retratar tipos marginais, quando a família é uma instituição tão forte no Brasil? Por que não a retratam nem que seja pra criticá-la como fez Nelson Rodrigues?
JP - Drama de família é visto muito em novela ou em comédia de classe média, ou drama adolescente. Nelson Rodrigues foi tão montado e lido e estudado que acabou "saturando" todo mundo. Também, montar uma peça com mais de três personagens de forma independente se torna inviável. Como manter um elenco grande só dependendo da bilheteria? Impossível. Mas já estou algum tempo pensando em escrever um texto sobre a família, mesmo que não monte. Acho que agora já estou preparado para essa empreitada, vou ser pai.
PM - Diferentemente dos autores europeus, os autores brasileiros contemporâneos quando retratam uma situação-limite ou algum personagem desesperado, nunca abrem mão do humor, nem que seja um humor negro. Como é o humor nas suas peças?
JP - Uma vez, presenciei um acidente de trânsito, o motorista e a passageira estavam inconsoláveis, o carro estava lastimável, eles tinham alguns machucados superficiais pelo corpo, nada grave. Passado algum tempo, estavam completamente relaxados, rindo, fazendo piada da sua desgraça. Isso faz parte do ser humano. O humor em minhas peças surge naturalmente, devido ao desenho dramático e principalmente desse evento que me marcou.
PM - Essa geração de novos autores parece que não está interessada em mudar as formas do teatro, como nos anos 1960, em que havia uma preocupação em mudar o espaço cênico, do palco italiano para espaços não-convencionais, peças com maior predominância do visual que do texto, etc. Como você lida com essas questões?
JP - Já fiz teatro de arena, semi-arena, italiano convencional, não convencional, em garagem, em uma rua na Espanha, Igreja, praças, dentro de um ônibus, galpão, até num Castelo do século XII, em Portugal. Tem muita peça aqui em São Paulo, que se passa em locais bem diferentes do que o palco italiano. Tudo já foi feito, testado, inventado. Eu particularmente prefiro o palco italiano ou o semi-arena. Gosto de deixar espaço para criar a magia do teatro e a caixa preta é fundamental. O teatro tem que ser verbal. Imagem é bom para a linguagem do cinema, que tem a câmera para se aproximar do rosto do ator. Acho que não adianta estar num lugar maravilhoso, ou num cenário do caralho, se a peça for chata, se a peça não tocar o público.
PM - Nelson Rodrigues escrevia muito rápido, inclusive escreveu Vestido de Noiva em três dias e se culpava por isso, pois esta aparente rapidez podia ser vista como superficialidade. Qual é o seu ritmo de escrita? Você escreve num jato só ou segue um roteiro previamente elaborado?
JP - Antes eu escrevia em três dias... uma semana, no máximo, em dois meses uma peça nova. Hoje reescrevo muito. Estou levando meses para terminar um texto. Nesse último, já estou trabalhando há mais de um ano. Isso não quer dizer nada. Pode ser que numa sentada uma peça seja maravilhosa e outra, de elaboração mais longa, seja uma bosta. O que acontece é que com o tempo a gente vai ficando mais seletista, mais detalhista. Acredito que por isso eu demore mais para terminar um texto. Pesquiso muito a vida do personagem, para não escrever o mesmo personagem numa história diferente. Escrever é difícil, é um trabalho duro, leva muito tempo para se descobrir qual é a ideia principal escondida no texto. E quase sempre, temos que eliminar a primeira ideia, que não passa de um clichê já mostrado milhões de vezes.
PM - Pra terminar: você olha os seus personagens, mesmo os mais marginais e loucos, com um olhar de generosidade (lembra, inclusive, John Steinbeck, que tinha o mesmo olhar). Agora que você vai ser pai, esse olhar vai se tornar mais generoso?
JP - Cara, eu tenho uma piedade miserável da vida que meus personagens levam. Agora que vou ser pai, pelo contrário, minha visão está mudando. O filme que vou lançar em breve Às vezes o céu é azul já reflete isso. Meus personagens antes só apanhavam, agora batem e até matam, para proteger sua prole. Acho que estou ficando adepto do código das famílias mafiosas da Sicilia. Não sei se isso vai permanecer como regra, mas agora é o que está acontecendo na minha escrita. Estou mais interessado na ética e nas leis praticadas, tanto pelos excluídos, como pelos marginais violentos do crime organizado, que se defendem como podem nesse mundo hipócrita e corrupto em que vivemos.
dezembro, 2010
Paulo Mohylovski (São Paulo/SP, 1962). Redator, escreve para diversos sites. Vive em São Paulo.
Paulo Mohykovski - O teatro do século vinte apontou para a incomunicabilidade do indivíduo, a tal ponto, que muitas peças parecem quase incompreensíveis, como as de Samuel Beckett. Neste século, parece que há uma busca pela comunicação, mesmo quando enfocam personagens solitários ou banidos da sociedade. Como você encara esse tema, o da comunicação ou da falta dela, nas suas peças?
Joeli Pimentel - Acho que nas minhas peças os personagens estão sempre tentando. Tentando se comunicar, tentando fazer, tentando mudar, e duma certa forma eles sempre conseguem, nem que for morrendo como na peça Comprei um Tresoitão e fui Brincar com Deus.
Hoje a comunicação tá tão fácil, tudo está tão exposto, tudo tão liberado, que parece que as pessoas não têm tempo (nem saco) pra pensar, pra estudar, pra meditar, se envolver seriamente com algo ou com alguém, parece que tudo isso virou uma bobagem.
Então tudo ficou superficial. Acho que estamos numa fase em que todo mundo pode falar a comunicação está fácil mas não tem O QUE falar. Parafraseando o jornalista da Gazeta Mercantil, Juan Velásquez, que escreveu sobre o Tresoitão no Jornal do Comércio (ele mata no ninho esse assunto): "Quando uma trupe de teatro se junta, um dos primeiros obstáculos para uma boa montagem é vencer o desafio de encontrar o que se quer dizer".
Acho que isso é um retrato do momento em que vivemos. Hoje em dia as pessoas são mais instrumentalizadas e menos preparadas para a vida, cada vez mais social e menos capaz de lidar com a sociedade. Quem vê minhas peças fica intrigado, porque parece que a solução do problema é tão fácil e às vezes até é, mas os personagens que estão vivendo aquilo não conseguem resolver. No Perfuro (meu último texto ainda inédito) temos dois personagens com personalidades bem marcadas, fortes e que defendem suas ideias o tempo todo, ou seja, solucionamos o problema da comunicação. Agora, chegar num denominador comum e resolver a situação é que é difícil. Temos que falar menos e agir mais. Nas minhas peças sempre tem uma resolução, no caso da Perfuro é a união para um bem maior.
PM Você e o Mário Bortolotto são representantes de um novo teatro, tanto que já trabalharam juntos. Quais as semelhanças e diferenças entre vocês dois como autores?
JP - Somos parecidos no universo retratado de nossas obras, o de dar voz a personagens outsiders, que normalmente ficariam fora da dramaturgia no Brasil. A diferença está na maneira de compor esses tipos. Os personagens que ele cria brigam com o mundo em volta e não arredam o pé do que acreditam, são irônicos. Os meus personagens já são guiados pelo acaso, estão à deriva nas intempéries da vida, sofrem por ser românticos num meio violento e normalmente enlouquecem. Acho que sou um dramaturgo de visão piedosa para com os seres humanos. Acho que a diferença está aí.
PM - Uma das características que une você ao Bortolotto é uma forte carga autobiográfica nas suas peças. Nunca os autores expuseram tanto as suas vidas. De onde nasceu esa necessidade de expor a própria vida?
JP - Todos os seres humanos passam ou sofrem dos mesmos dilemas. Quando utilizamos nossas vidas, acredito que ocorre uma identificação maior com o público. Falamos do microcosmo para o macro. Do nosso quintal para as esquinas do mundo. Eu acho que todo autor retrata o que está passando, o que está vivendo: o que pensa é sua reflexão do mundo. Acho que é pra isso que escrevemos. Mesmo que seja um autor criando personagens femininas, elas são um pouco do que acreditamos, de como vemos um tipo de mulher. Acho que hoje em dia os autores podem "assumir" que essa é sua vida e o que eles acreditam; o que não dava pra acontecer alguns anos atrás, porque senão eram presos ou tidos como loucos. Os meus textos são mais perguntas do que respostas sobre a vida. Tudo o que escrevo está cheio de dilemas físicos ou existenciais, que temos que passar enquanto seres vivos.
PM - Os artistas geralmente são oriundos de classe média alta, pois podem pagar cursos de teatro, comprar livros, frequentar peças, etc. A sua biografia é bem diferente, já que você vem de uma classe economicamente mais desfavorecida. O que isso influenciou no seu teatro?
JP - Sou um beatnik, um viajante, meio louco, meio alguma coisa e meio bosta nenhuma. Todo artista sofre influência do meio em que foi criado e eu não poderia fugir à regra. As dificuldades econômicas me mostraram outro mundo, o mundo dos excluídos, dos operários, dos boias-frias (trabalhadores rurais). Até os dezessete anos fui um caipira, alienado, um branquelo morador de favela, uma bola chutada sem reclamar, um desses covardes católicos que esperava a vinda do Messias para salvar seu rabo. Depois disso, o teatro e a literatura e o cinema me municiaram para enfrentar o mundo. Escrevo sobre os personagens que vivem na periferia do mundo. Mesmo agora, com uma vida mais confortável, não mudei nada: continuo arrancando a superfície da pele do mundo, para mostrar a merda que é seu interior. Eu não saberia escrever sobre a classe média, sobre suas frivolidades, suas comédias sem graça.
PM - Nos anos 80, toda a geração beat começou a ser publicada e um autor como Bukowski, que não é um beatnik de carteirinha, se tornou popular no Brasil. Muitos jovens autores se deixaram influenciar por essa geração. Ao mesmo tempo nossa literatura afogou-se em cervejas e drogas. O quanto isso foi favorável e o quanto foi prejudicial aos novos autores?
JP - Se a pessoa consegue ler Bukowski ou qualquer um da geração beat e só enxergar que eles são uns bêbados vagabundos, então não entendeu nada. O mais importante é que essa geração mostrou outro caminho para os jovens escritores, uma maneira diferente de escrita, que se comunicava com as ruas. Não vejo nada de prejudicial, até porque são poucos os escritores de teatro que têm ou tiveram um estilo de vida beatnik. Já na literatura temos um pouco mais.
PM - Tennessee Williams foi um dramaturgo que começou a sua carreira retratando tipos problemáticos, marginalizados, mas só alcançou o sucesso, de fato, com um drama familiar. Por que os autores preferem retratar tipos marginais, quando a família é uma instituição tão forte no Brasil? Por que não a retratam nem que seja pra criticá-la como fez Nelson Rodrigues?
JP - Drama de família é visto muito em novela ou em comédia de classe média, ou drama adolescente. Nelson Rodrigues foi tão montado e lido e estudado que acabou "saturando" todo mundo. Também, montar uma peça com mais de três personagens de forma independente se torna inviável. Como manter um elenco grande só dependendo da bilheteria? Impossível. Mas já estou algum tempo pensando em escrever um texto sobre a família, mesmo que não monte. Acho que agora já estou preparado para essa empreitada, vou ser pai.
PM - Diferentemente dos autores europeus, os autores brasileiros contemporâneos quando retratam uma situação-limite ou algum personagem desesperado, nunca abrem mão do humor, nem que seja um humor negro. Como é o humor nas suas peças?
JP - Uma vez, presenciei um acidente de trânsito, o motorista e a passageira estavam inconsoláveis, o carro estava lastimável, eles tinham alguns machucados superficiais pelo corpo, nada grave. Passado algum tempo, estavam completamente relaxados, rindo, fazendo piada da sua desgraça. Isso faz parte do ser humano. O humor em minhas peças surge naturalmente, devido ao desenho dramático e principalmente desse evento que me marcou.
PM - Essa geração de novos autores parece que não está interessada em mudar as formas do teatro, como nos anos 1960, em que havia uma preocupação em mudar o espaço cênico, do palco italiano para espaços não-convencionais, peças com maior predominância do visual que do texto, etc. Como você lida com essas questões?
JP - Já fiz teatro de arena, semi-arena, italiano convencional, não convencional, em garagem, em uma rua na Espanha, Igreja, praças, dentro de um ônibus, galpão, até num Castelo do século XII, em Portugal. Tem muita peça aqui em São Paulo, que se passa em locais bem diferentes do que o palco italiano. Tudo já foi feito, testado, inventado. Eu particularmente prefiro o palco italiano ou o semi-arena. Gosto de deixar espaço para criar a magia do teatro e a caixa preta é fundamental. O teatro tem que ser verbal. Imagem é bom para a linguagem do cinema, que tem a câmera para se aproximar do rosto do ator. Acho que não adianta estar num lugar maravilhoso, ou num cenário do caralho, se a peça for chata, se a peça não tocar o público.
PM - Nelson Rodrigues escrevia muito rápido, inclusive escreveu Vestido de Noiva em três dias e se culpava por isso, pois esta aparente rapidez podia ser vista como superficialidade. Qual é o seu ritmo de escrita? Você escreve num jato só ou segue um roteiro previamente elaborado?
JP - Antes eu escrevia em três dias... uma semana, no máximo, em dois meses uma peça nova. Hoje reescrevo muito. Estou levando meses para terminar um texto. Nesse último, já estou trabalhando há mais de um ano. Isso não quer dizer nada. Pode ser que numa sentada uma peça seja maravilhosa e outra, de elaboração mais longa, seja uma bosta. O que acontece é que com o tempo a gente vai ficando mais seletista, mais detalhista. Acredito que por isso eu demore mais para terminar um texto. Pesquiso muito a vida do personagem, para não escrever o mesmo personagem numa história diferente. Escrever é difícil, é um trabalho duro, leva muito tempo para se descobrir qual é a ideia principal escondida no texto. E quase sempre, temos que eliminar a primeira ideia, que não passa de um clichê já mostrado milhões de vezes.
PM - Pra terminar: você olha os seus personagens, mesmo os mais marginais e loucos, com um olhar de generosidade (lembra, inclusive, John Steinbeck, que tinha o mesmo olhar). Agora que você vai ser pai, esse olhar vai se tornar mais generoso?
JP - Cara, eu tenho uma piedade miserável da vida que meus personagens levam. Agora que vou ser pai, pelo contrário, minha visão está mudando. O filme que vou lançar em breve Às vezes o céu é azul já reflete isso. Meus personagens antes só apanhavam, agora batem e até matam, para proteger sua prole. Acho que estou ficando adepto do código das famílias mafiosas da Sicilia. Não sei se isso vai permanecer como regra, mas agora é o que está acontecendo na minha escrita. Estou mais interessado na ética e nas leis praticadas, tanto pelos excluídos, como pelos marginais violentos do crime organizado, que se defendem como podem nesse mundo hipócrita e corrupto em que vivemos.
dezembro, 2010
Paulo Mohylovski (São Paulo/SP, 1962). Redator, escreve para diversos sites. Vive em São Paulo.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
A mulher no bar
Em algum momento da minha vida uma mulher olhou pra mim num bar cheio de gente interessante, achei que não fosse comigo, porque uma mulher daquelas, uma fada iria olhar para um cara como eu? Normalmente chegaria nela se estivesse bêbado, mas daquela mulher eu não conseguiria me aproximar nem bêbado. Um comedor de costela com mandioca de boteco como eu não lida bem com a rejeição. Enquanto troco de roupa sinto uma alegria confusa, com um misto de medo. Saio do vestiário já com roupa de hospital e máscara e fui para sala de espera; na sala tinha um aparelho antigo de medir os batimentos cardíacos desses que não se usava mais; um sofá de dois lugares de cada lado com mais dois pais vestidos como eu aguardando serem chamados. Em vinte minutos a enfermeira avisou que estava na hora; subi um lance de escada à esquerda do corredor, “Centro Cirúrgico” dizia a placa. Confuso. Apertei o interfone me indicaram a sala de vidro fumê de vai e vem, entrei. Daí para frente tudo ficou mais confuso ainda, parecia que meus olhos fotografavam cada movimento. A porta abriu, a enfermeira me pedia para tomar cuidado onde pisa-se. A Dany estava deitada com um pano separando sua cintura do resto do seu corpo, não dava para vê-la do outro lado da cortina; o assistente e o mesmo médico que tinha feito o parto da Dany 34 anos atrás já tinha começado os procedimentos, quando vi o sangue em suas mãos e a barriga da Dany aberta senti meus pés formigarem, fixei o chão; resisti a vontade de olhar novamente. Fui levado até uma banquinho sem encosto. Sentei. Segurei a mão da Dany, minha mão estava gelada e suada, ela riu pra mim, aquele sorriso me confortou e me trouxe a terra novamente. Ela estava bem; ali atrás das cortinas eu evitava ficar de pé para ver o que os médicos faziam com o resto do seu corpo. A Dany é uma guerreira, sabia do medo dela, mas foi forte, agora a história seria outra, da outra vez foi tristeza; agora é pura alegria, êxtase. Duas moças filmavam e fotografavam; o Dr. avisa para abrir a janela; a família e os amigos estão todos do lado de fora aguardando. Eu e a Dany vemos quando nosso filho nasce, catarse, ele engasga, tenta de novo, engasga para em seguida chorar. Choramos juntos. Cortam o umbigo e o entregam para enfermeira. Só Deus para saber o que passamos para ter esse menino. Agora é realidade. A enfermeira o traz para perto da mãe, mãe e filho se olham pela primeira vez. Meus olhos ficam fora de foco. Limpo as lágrimas. Eles levam ele até uma mesa do outro lado e pedem para eu acompanhar. Limpam passam pomada nos seus olhos, colocam pulseiras de identificação, pronto agora ele tem código de barra com o nome da mãe impresso. Ele é embrulhado bem apertado e levado para a mãe novamente, eu ainda não consegui tocá-lo. A enfermeira encaixa ele no pescoço dela e pede para eu segurá-lo. Ele chora a Dany fala com ele e roça seu rosto no dele; ele gosta e fica quieto, se senti seguro, ela pronuncia seu nome. Breno. Toco nele como se estivesse sendo apresentado ao novo amigo. É meu filho. Meu deus que vamos fazer agora? Será que ele vai ser um cara legal? Será que vai gostar de mim? Será que vou ser um bom pai para ele? Será que ele vai ser ator quando crescer? E mais um monte de serás. Tinha me esquecido das pessoas do lado de fora da sala. Peguei o Breno, aquele ser pequeno, frágil e o suspendi para que eles pudessem vê-lo. As avós, bisavós, tio, tia, primos e amigos fotografavam, riam, comemoravam. Nosso filho nasceu.
domingo, 26 de setembro de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
SOBRE O OCORRIDO EM LONDRES
Queridos amigos
Há aproximadamente 6 meses, a nossa Companhia – Teatro da Curva – recebeu um convite do Camden Fringe Festival , de Londres, para apresentar o espetáculo “Otimismo”, de Voltaire, adaptação de Ralph Maizza. Estreamos esse espetáculo em 2008 e ao longo de 2 anos fizemos 3 temporadas. Esse convite representou a expansão e coroação de um espetáculo realizado com poucos recursos, mas com muita dedicação, profissionalismo e amor. Durante esses 6 meses, trabalhamos continuamente e intensamente no levantamento de recursos afim de financiar a nossa viagem, visto que não haveria remuneração financeira, e sim apenas o intercâmbio cultural. Levantamos a verba necessária e adaptamos o nosso espetáculo para atender às necessidades do público inglês, de forma a proporcionar uma ampla compreensão do texto encenado, sem que o mesmo perdesse a sua essência.
Enfim, reunimos toda a documentação necessária de acordo com a legislação da imigração inglesa e seguindo orientação do Festival, que inclusive nos enviou uma carta convite, constando o nome de todos os envolvidos, para que a mesma fosse apresentada na imigração. Nos endividamos, recebemos o apoio de amigos, familiares e classe artística, e embarcamos rumo à concretização dos nossos sonhos e expectativas. Após uma longa viagem de 12 horas, chegamos cansados, porém muito empolgados e felizes, em solo inglês. Num primeiro momento, fomos recebidos cordialmente pelos agentes da imigração inglesa. Apresentamos todos os documentos necessários, demos as devidas explicações e fomos sinceros e claros quanto aos nossos objetivos em território inglês. Entregamos ao oficial nossos passaportes, a carta convite, as passagens de ida e de volta, o endereço no qual ficaríamos hospedados com carta de acomodação e informamos o quanto possuíamos em libras, quantia essa mais do que suficiente para bancar a nossa permanência em Londres durante os 10 dias de viagem.
Enquanto o oficial da imigração checava toda a documentação apresentada, fomos conduzidos a outra sala, onde nos revistaram e também as nossas bagagens, tudo de maneira cordial, porém, com algumas perguntas evasivas e atitudes invasivas (como, por exemplo, pedir para traduzir a carta de “boa viagem” da mãe de um dos atores, entre outras violações). Após 5 horas de espera, sendo ludibriados pelos oficiais da imigração, que nos diziam tudo aquilo se tratar de procedimento padrão para que pudéssemos entrar em território inglês, fomos comunicados da nossa inadmissão naquele país. A imigração alegou que não poderíamos entrar, pois não se tratava de um festival que possuía registro oficial e, portanto, o mesmo não tinha o direito de nos convidar. Sendo assim, necessitávamos de um visto de trabalho. No entanto, segundo cláusula do site de imigração londrina (no qual não consta a lista de registro dos Festivais Oficiais), é permitida a entrada no país de turistas e artistas para mostrarem o seu trabalho temporariamente, num período de 10 dias, não necessitando do visto de trabalho, já que não há remuneração. Mesmo sem o direito da palavra, dissemos isso ao oficial da imigração que, com muito cinismo e prepotência, nos replicou que poderíamos entrar como turistas, porém não naquele dia e, se quiséssemos, poderíamos voltar no dia seguinte. Ainda assim, manifestações, e pessoas do festival estavam no aeroporto tentando falar com a imigração para confirmar a veracidade das nossas informações, a falha de um documento complementar por parte do festival, bem como explicar que a nossa situação era completamente legal. A imigração, com seu radicalismo e xenofobia, não permitiu que essa comunicação fosse efetuada. A partir desse momento, a cordialidade dos oficiais ingleses transformou-se em uma hostilidade injusta e inadequada, já que estavam lidando com artistas (turistas) com documentação legal, que não haviam cometido nenhum delito. Digitais (mãos inteiras) e fotos foram tiradas de todos, e o direito de réplica nos foi negado de maneira estúpida e ameaçadora. Nos revistaram novamente, mas dessa vez de maneira agressiva. Nenhuma explicação. Agentes da segurança foram chamados para impedir qualquer manifestação da nossa parte, que apenas desejava conversar e entender o ocorrido. O pedido de tomar banho, trocar de roupas ou mesmo de fumar um cigarro foi negado rudemente, bem como a comunicação com a nossa produtora local. Os celulares foram apreendidos para que não tirássemos fotos. Em seguida, fomos escoltados por um grupo de seguranças até o momento de entrada no avião, cuidando para que não abríssemos as bagagens. Nos cercaram na zona de embarque na frente de todos os passageiros, até que os mesmos entrassem no avião. Nos sentimos envergonhados e acuados, e enquanto embarcávamos de volta, os seguranças ingleses nos davam um “tchauzinho” cínico e um sorriso sarcástico.
É importante registrar o quanto foi saudosa a recepção da tripulação da TAM, assim como a reação dos passageiros a nossa volta, bem como a calma e solidariedade da Policia Federal ao chegarmos no Brasil.
Com relação à falha da documentação complementar que não foi emitida pelo festival (registro), o grupo já está tomando as devidas providências. Vale ressaltar que tal falha do festival não tornava a nossa condição ilegal para que pudéssemos, de alguma forma, entrar em solo “shakespeareano”.
Escrevemos essa carta para o esclarecimento dos fatos, para que não haja dúvidas e tampouco distorções a respeito do ocorrido. Sobretudo, colocamos aqui que o objetivo não é o ressarcimento financeiro, e sim a expressão de nossa tristeza, indignação e sensação de impotência, visto que nos sentimos envergonhados sem termos feito nada de errado, bem como nos sentimos fracassados e humilhados sem termos falhado. Não é possível descrever o sentimento de rejeição e injustiça gratuita que experienciamos. No mais, acima de tudo, queremos fazer jus a nossa dignidade. Chegou a hora de lutarmos efetivamente contra a xenofobia, bem como reivindicar nossos direitos de cidadãos do mundo e artistas.
Abraço a todos,
Teatro da Curva
Celso Melez, Didio Perini, Flávia Tápias, Leandro D’Errico, Mariana Blanski, Ralph Maizza, Reynaldo Thomaz, Ricardo Gelli, Tadeu Pinheiro e Walter Figueiredo.
Queridos amigos
Há aproximadamente 6 meses, a nossa Companhia – Teatro da Curva – recebeu um convite do Camden Fringe Festival , de Londres, para apresentar o espetáculo “Otimismo”, de Voltaire, adaptação de Ralph Maizza. Estreamos esse espetáculo em 2008 e ao longo de 2 anos fizemos 3 temporadas. Esse convite representou a expansão e coroação de um espetáculo realizado com poucos recursos, mas com muita dedicação, profissionalismo e amor. Durante esses 6 meses, trabalhamos continuamente e intensamente no levantamento de recursos afim de financiar a nossa viagem, visto que não haveria remuneração financeira, e sim apenas o intercâmbio cultural. Levantamos a verba necessária e adaptamos o nosso espetáculo para atender às necessidades do público inglês, de forma a proporcionar uma ampla compreensão do texto encenado, sem que o mesmo perdesse a sua essência.
Enfim, reunimos toda a documentação necessária de acordo com a legislação da imigração inglesa e seguindo orientação do Festival, que inclusive nos enviou uma carta convite, constando o nome de todos os envolvidos, para que a mesma fosse apresentada na imigração. Nos endividamos, recebemos o apoio de amigos, familiares e classe artística, e embarcamos rumo à concretização dos nossos sonhos e expectativas. Após uma longa viagem de 12 horas, chegamos cansados, porém muito empolgados e felizes, em solo inglês. Num primeiro momento, fomos recebidos cordialmente pelos agentes da imigração inglesa. Apresentamos todos os documentos necessários, demos as devidas explicações e fomos sinceros e claros quanto aos nossos objetivos em território inglês. Entregamos ao oficial nossos passaportes, a carta convite, as passagens de ida e de volta, o endereço no qual ficaríamos hospedados com carta de acomodação e informamos o quanto possuíamos em libras, quantia essa mais do que suficiente para bancar a nossa permanência em Londres durante os 10 dias de viagem.
Enquanto o oficial da imigração checava toda a documentação apresentada, fomos conduzidos a outra sala, onde nos revistaram e também as nossas bagagens, tudo de maneira cordial, porém, com algumas perguntas evasivas e atitudes invasivas (como, por exemplo, pedir para traduzir a carta de “boa viagem” da mãe de um dos atores, entre outras violações). Após 5 horas de espera, sendo ludibriados pelos oficiais da imigração, que nos diziam tudo aquilo se tratar de procedimento padrão para que pudéssemos entrar em território inglês, fomos comunicados da nossa inadmissão naquele país. A imigração alegou que não poderíamos entrar, pois não se tratava de um festival que possuía registro oficial e, portanto, o mesmo não tinha o direito de nos convidar. Sendo assim, necessitávamos de um visto de trabalho. No entanto, segundo cláusula do site de imigração londrina (no qual não consta a lista de registro dos Festivais Oficiais), é permitida a entrada no país de turistas e artistas para mostrarem o seu trabalho temporariamente, num período de 10 dias, não necessitando do visto de trabalho, já que não há remuneração. Mesmo sem o direito da palavra, dissemos isso ao oficial da imigração que, com muito cinismo e prepotência, nos replicou que poderíamos entrar como turistas, porém não naquele dia e, se quiséssemos, poderíamos voltar no dia seguinte. Ainda assim, manifestações, e pessoas do festival estavam no aeroporto tentando falar com a imigração para confirmar a veracidade das nossas informações, a falha de um documento complementar por parte do festival, bem como explicar que a nossa situação era completamente legal. A imigração, com seu radicalismo e xenofobia, não permitiu que essa comunicação fosse efetuada. A partir desse momento, a cordialidade dos oficiais ingleses transformou-se em uma hostilidade injusta e inadequada, já que estavam lidando com artistas (turistas) com documentação legal, que não haviam cometido nenhum delito. Digitais (mãos inteiras) e fotos foram tiradas de todos, e o direito de réplica nos foi negado de maneira estúpida e ameaçadora. Nos revistaram novamente, mas dessa vez de maneira agressiva. Nenhuma explicação. Agentes da segurança foram chamados para impedir qualquer manifestação da nossa parte, que apenas desejava conversar e entender o ocorrido. O pedido de tomar banho, trocar de roupas ou mesmo de fumar um cigarro foi negado rudemente, bem como a comunicação com a nossa produtora local. Os celulares foram apreendidos para que não tirássemos fotos. Em seguida, fomos escoltados por um grupo de seguranças até o momento de entrada no avião, cuidando para que não abríssemos as bagagens. Nos cercaram na zona de embarque na frente de todos os passageiros, até que os mesmos entrassem no avião. Nos sentimos envergonhados e acuados, e enquanto embarcávamos de volta, os seguranças ingleses nos davam um “tchauzinho” cínico e um sorriso sarcástico.
É importante registrar o quanto foi saudosa a recepção da tripulação da TAM, assim como a reação dos passageiros a nossa volta, bem como a calma e solidariedade da Policia Federal ao chegarmos no Brasil.
Com relação à falha da documentação complementar que não foi emitida pelo festival (registro), o grupo já está tomando as devidas providências. Vale ressaltar que tal falha do festival não tornava a nossa condição ilegal para que pudéssemos, de alguma forma, entrar em solo “shakespeareano”.
Escrevemos essa carta para o esclarecimento dos fatos, para que não haja dúvidas e tampouco distorções a respeito do ocorrido. Sobretudo, colocamos aqui que o objetivo não é o ressarcimento financeiro, e sim a expressão de nossa tristeza, indignação e sensação de impotência, visto que nos sentimos envergonhados sem termos feito nada de errado, bem como nos sentimos fracassados e humilhados sem termos falhado. Não é possível descrever o sentimento de rejeição e injustiça gratuita que experienciamos. No mais, acima de tudo, queremos fazer jus a nossa dignidade. Chegou a hora de lutarmos efetivamente contra a xenofobia, bem como reivindicar nossos direitos de cidadãos do mundo e artistas.
Abraço a todos,
Teatro da Curva
Celso Melez, Didio Perini, Flávia Tápias, Leandro D’Errico, Mariana Blanski, Ralph Maizza, Reynaldo Thomaz, Ricardo Gelli, Tadeu Pinheiro e Walter Figueiredo.
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